De que vale toda a tecnologia do mundo, quando os funcionários são umas bestas. Esta aconteceu com o Fábio Barros, contada por ele mesmo:
Gol, de novo
Sexta-feira, 15 de maio de 2009
20h – Minha ex-mulher, Ivana Colombini, que vive no Rio de Janeiro com nosso filho de 11 anos, Enrico, vai com ele para o aeroporto Santos Dumont. Ele embarcaria no voo 1559 da Gol, que deveria deixar o Rio às 20h40 e chegar ao aeroporto de Congonhas, em São Paulo, às 21h40. O voo estava atrasado, e não havia previsão do horário em que sairia do Rio.
O aeroporto está confuso. Por causa da chuva, o aeroporto de Congonhas havia sido fechado por algumas horas, criando congestionamento de voos. Com medo de que o voo não chegasse a tempo em Congonhas e fosse transferido para Cumbica, em Guarulhos (SP), Ivana pensa em transferir a passagem para a manhã de sábado. É dissuadida pela atendente:
- Não se preocupe. Outros voos serão transferidos, mas é certeza que o voo de seu filho vai pousar em Congonhas.
Enrico embarca no Santos Dumont, com destino a Congonhas, às 21h30
21h30 – aguardando em São Paulo estamos eu, minha atual mulher, Fernanda, e minha filha mais nova, Maria Helena, de um anos e nove meses. O painel da Infraero não informa que o voo 1559 está atrasado e recebo uma ligação de meu filho. Ele havia acabado de embarcar e estava dentro do avião.
22h30 – quase uma hora após o horário previsto para pouso em São Paulo, o painel da Infraero informa que o voo 1559 teve seu pouso transferido para o aeroporto de Cumbica. Procuro o balcão de informações que fica na área de desembarque de Congonhas. Uma funcionária da Infraero informa:
- O pouso foi transferido para Cumbica porque não haveria tempo de pousar aqui antes do fechamento do aeroporto. Ele vai pousar em Cumbica às 23h. O senhor pode se informar melhor no balcão da Gol.
Vou para área de check-in da Gol, em busca de informações.
22h40 – procuro um atendente da Gol no check-in. Me apresento como o pai do menor que viaja desacompanhado no voo 1559. Ele diz que há uma pessoa tentando entrar em contato comigo. Olho meu celular, nenhuma chamada.
- Ele está tentando falar com o senhor neste momento.
Mostro meu celular para o atendente. Nenhuma ligação. Ele chama o supervisor, Renato, que diz que estava tentando ligar para minha casa. Segue a segunte discussão:
- Se meu filho ia desembarcar aqui às 21h40, certamente eu não estaria em casa às 22h, certo?
- Mas este é o número de seu cadastro em nosso site…
- Meu celular e o da mãe dele estão na ficha de autorização de viagem dele, justamente para casos como este…
- Mas a ficha está com o menor, no avião.
- Que eu me lembre, na hora do check-in, a ficha é preenchida em três vias e apenas uma acompanha o menor. As outras ficam com vocês.
- …. (silêncio)
23h – Depois de discutir – sem qualquer efeito prático – sobre o fato de não haver qualquer forma de comunicação interna que permita à empresa contatar os pais de menores que viajam sozinhos. Iniciamos outra conversa.
- Bom, estou aqui. Você sabe me dizer a que horas o voo do meu filho vai pousar?
- Ele deve pousar em Cumbica até às 23h30.
Neste momento meu telefone toca. Enrico, meu filho, avisa que tinha acabado de desembarcar em Cumbica e diz que aguarda a funcionária da Gol para trazê-lo para Congonhas. Desligo e telefone, volto ao tal Renato:
- É impressão minha ou você não fazia menor ideia de que horas o avião ia pousar?
- Tínhamos uma previsão senhor, mas não temos como saber o horário certo.
- A funcionária da Infraero me disse que ele pousaria às 23h…
- Não temos como saber senhor…
- A moça da Infraero sabia.
- Não temos como saber senhor.
Meu telefone toca de novo. É o número do celular de meu filho. Escuto ele chorando e uma discussão ao fundo. Isso dura um minuto, no máximo, mas é tempo suficiente para que eu comece a gritar com os funcionários da Gol erm Congonhas.
- Meu filho está chorando aqui no telefone e não consigo falar com ele. Vocês podem me dizer o que está acontecendo?
O tal Renato:
- Estou tentando checar com a nossa central senhor.
Nisso uma voz conhecida do outro lado da linha. Uma velha amiga estava no mesmo voo do Enrico e o reconheceu. Ela pega o telefone dele.
- Fábio, é a Melissa. O Enrico estava sendo arrastado por uma funcionária da Gol aqui na área de desembarque. Estou com ele agora.
Aqui cabe uma explicação. No desembarque, uma funcionária da Gol, Sandra, foi buscar o Enrico e levá-lo para buscar sua bagagem. Ela o agarrou pelo braço e começou a arrastá-lo para o elevador. Ele reclamou que ela o estava machucando. Ela não deu ouvidos. Um outro passageiro chamou a atenção dela. Ela disse que estava trabalhando e continuou puxando. Ele me ligou de novo. Neste momento ele foi reconhecido pela Melissa, que também estava desembarcando.
Pedi a Melissa que ficasse com o Enrico até que ele chegasse em Congonhas e para falar com ele novamente. Nesse meio tempo, uma outra funcionária da Gol assumiu a missão de tarzer meu filho para Congonhas.
- Filho, fica calmo.
- Já tô mais calmo pai.
- Tem alguma funcionária da Gol com você?
- Tem sim.
- Deixa eu falar com ela…
Ela atende o telefone.
- Boa noite senhor.
- Boa noite. Como é seu nome?
- É Andrea, senhor.
- Andrea, você sabe me dizer o que aconteceu?
- Foi um mal entendido senhor, já foi resolvido.
Peço para ela aguardar na linha. Chamo o tal Renato e pergunto se ele conseguiu alguma notícia da central. Ele diz que não, que estava em contato com a central.
- Estou com a funcionária da Gol na linha, quer falar com ela?
- Estou tentando contatar a central senhor…
- Mas ela está aqui na linha…
- Não posso falar no seu celular senhor.
Agradeço a Andera por ter esperado e desligo o telefone. Renato consegue falar com a central e me dá o retorno:
- Senhor, não houve nada em Cumbica.
- Como não houve nada?
- Foi a posição que me passaram senhor.
- Eu estava com meu filho na linha e ele estava chorando. Ele disse que foi agredido!
- A central nos informou que não houve nada.
- Houve sim.
- Não estamos lá para ver senhor. A central disse que não houve nada.
Naquele momento eu tinha duas opções. Preferi ignorar e perguntar quando o Enrico estaria em Congonhas. O Renato disse que ele estava embarcando no táxi e que ia descer no saguão central do aeroporto. Deixo o check-in e vou para o saguão. A Fernanda me diz que foi muito sangue frio meu não agredir o Renato. Era a outra opção.
23h50 – Estamos no saguão do aeroporto esperando o táxi quando aparecem o Renato e mais uns quatro funcionários da Gol.
- Senhor, temos um problema.
- Qual?
- Sua amiga Melissa insiste em embarcar no táxi junto com seu filho.
- Você não disse que ele estava a caminho?
- Ele está no ponto de táxi senhor.
- Bom, eu pedi a ela que viesse com ele até aqui.
- Mas ela é parente dele?
- Não. É amiga da família e eu pedi que ela trouxesse ele.
- Mas é reponsabilidade nossa.
- Vocês não cumpriram a responsabilidade de vocês até agora. Deixa com ela.
- O senhor podia ligar prá ela e nos ajudar.
- Vocês não me ajudaram em nada até agora. Ela traz ele.
- Se é assim, vamos ter que acionar a polícia federal.
- Façam o que vocês quiserem. Ele vem com ela.
Renato e sua turma vão embora.
24h – Eu e Fernanda ficamos preocupados com a ameaça de chamar a polícia federal. Decidimos fazer o mesmo em Congonhas. Procuramos o posto da Polícia Civil decididos a dar queixa contra a funcionária da Gol da agrediu o Enrico. Contamos toda a história. O investigador, atencioso, pede licença e vai para outra sala fazer uma ligação. Fernanda volta para o saguão.
Ele volta e explica que como o fato ocorreu dentro do aeroporto, qualquer queixa teria de ser feita na Polícia Federal. Pergunto onde fica.
24h30 – Vamos ao posto da Polícia Federal em Congonhas. Somos recebidos por um policial. Digo a ele que quero dar queixa sobre uma agressão ocorrida em Cumbica. Ele pede para entrarmos e some para do posto. Fernanda volta ao saguão para esperar o táxi.
Depois de uns 15 minutos, ele retorna com mais dois. Me perguntam o que aconteceu e começo a contar a história. Nesse momento batem na porta. Melissa e Enrico haviam chegado. Todos entram. O policial que havia me atendido começa a contemporizar.
- Olhaí, o menino chegou bem. O importante é isso.
- Mas eu gostaria de dar queixa.
- Você estava preocupado com seu filho. Ele está bem.
Tocam a campanhia do posto. Renato e uns três funcionários da Gol me procurando. Antes de falar comigo, Renato cumprimenta os três policiais, efusivamente. Ele pede que eu assine o documento que comprova que o Enrico foi entregue ao pai. Depois que eu assino, ele vai embora, sorrindo.
Ainda ficamos uns 20 minutos no posto da Polícia Federal. Primeiro tentando dar queixa, depois tentando entender aonde poderíamos dar queixa. Um dos policiais troca telefonemas com o posto de Cumbica. Descobrimos que o passageiro que chamou a atenção da funcionárida Gol que agrediu o Enrico estava prestando depoimento. Ela deu queixa, dizendo que ele tentou impedi-la de fazer seu trabalho. Para nós, a resposta:
- Se vocês querem dar queixa, vocês saiam daqui agora e vão à polícia civil de Cumbica. Isso tem que ser feito lá.
01h15 – Madrugada de sábado. Deixamos Congonhas e vamos para casa absolutamente impotentes. E assim ficaremos até a próxima vez.
Fábio Barros – fabiobbarros@terra.com.br